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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Escrevendo por aí de madrugada

Ainda era cedo e ela não via a hora passar. Sentada, olhava para a mandala que fora colocada na parede na semana anterior. Presente. Admirava o emaranhado de linhas e círculos e cores. Uma bagunça. Bebericava seu chá. Estava frio.
Agitada, levantou da cadeira e se pôs a andar de um lado para o outro , queria sair, mas não sabia o porquê. Olhou pela janela os carros passando. Que rua barulhenta. Que ideia abrir um escritório justo aqui!
Era como se uma tempestade estivesse se armando, não lá fora, mas dentro de sua própria cabeça. Eram tantos pensamentos. Uma cortina de nuvens escuras cobria tudo. Visibilidade zero. Queria sumir e talvez agora ela soubesse o porquê.
No entanto, não dá para fugir do que você mesma guarda dentro de si. Fizera de seu corpo um depósito. Guardou tanta coisa que agora inundava. E ficou ali parada, no meio da sala, olhando a mandala, olhando o relógio, transbordando, não vendo a hora passar.

domingo, 15 de novembro de 2015

Sobre como melhorar a sua vida simplesmente aprendendo a se ouvir!

Amo escrever, porém não o faço com muita frequência. É que me sobram sentimentos e me faltam palavras. Acontece que tenho notado que as pessoas estão exigindo muito de si mesmas e se esgotando. Eu mesma cometo esse erro às vezes (vide post passado). Felizmente melhorei muito e tenho conseguido enxergar e parar a tempo na maioria das vezes! Vivo de maneira intensa, meio presa ao meu mundo, ao meu jeito de ser. Posso parecer meio parada, quieta por demais, mas minha cabeça não para. E, desse modo aparentemente distraído, observo o que está a minha volta, cores, vozes, conversas, sons. Às vezes tenho dificuldade de me desligar do mundo. 

O mundo, atualmente, por si só, já é ansiogenico, portanto não piore as coisas pro seu lado. Seu corpo fala, é só saber ouvi-lo! Ouço muitas reclamações sobre a falta de respeito entre as pessoas, mas e a falta de respeito consigo mesmo? Pois é... Algo tão importante, mas tão negligenciado. Pois saibam, todos temos limitações que normalmente recalcamos, escondemos e decidimos ignorar. E isso é o que eu chamo de fechar os ouvidos para o próprio corpo.

As pessoas precisam ter uma válvula de escape, caso contrário todas pirariam! Ainda tenho por mim que boa parte do que acontece por aí é por esse motivo. Tenho vários mecanismos meus, que me desaceleram, me acalmam e me colocam no eixo. Pintar, ler, escrever, cozinhar, desenhar, beber um chá, ficar submersa na piscina são alguns deles. Cada um tem algo que funciona melhor para si próprio. E, só se consegue descobrir, com experiência, muito auto conhecimento e, o mais importante, ter tempo para si. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Sobre ser futura médica, primeiro contato com um paciente

A primeira vez que me vi diante de um paciente, no quarto período, estava junto de uns vinte e poucos alunos dentro de um anfiteatro. Ele estava lá na frente, sentado tranquilamente na cadeira enquanto meus colegas o bombardeavam com perguntas e eu, de longe, estava petrificada sentada no fundo da sala. "É uma pessoa de verdade. Estou lidando com uma pessoa!". Sei que parece ridículo esse tipo de pensamento passar pela cabeça de um estudante de medicina, afinal, optamos por lidar diretamente com gente! No entanto eu estava aterrorizada diante dessa situação. 

Timidamente fui me acostumando com a situação, demorei muito para colher uma história sozinha e, confesso que só fui fazer isso no quinto período, meio ano depois! Loucura, não? Não é não. Lidar com o paciente não é algo trivial. Cada pessoa é única e nós nunca saberemos o que esperar da pessoa que está na sua frente quando falarmos "Bom dia, em que posso ajudar?" ou qualquer outra pergunta similar. Tudo é incerto! Isso não se ensina em livros, você vai 'pegando o jeito' com a prática. Isso me dava medo, muito.

Demorou cerca de dois períodos para que eu parasse de ficar cheia de placas vermelhas no rosto e no pescoço enquanto colhia uma história e examinava um paciente. E mais um período para que eu conseguisse sentar em uma mesa e atender alguém sozinha. Na verdade eu só fui fazer isso quando uma professora minha, muito querida, virou para mim, com uma mãe e seu bebê de 30 dias ao seu lado, e disse "Atende, que esse é pra você!". 

A minha resposta, quase como um pensamento exteriorizado, foi automaticamente essa "O que que eu faço primeiro?". Por incrível que pareça, apesar do branco inicial, sentei com a mãe e comecei a colher a história e, quando vi, já estava examinando com a professora e dando hipóteses diagnósticas que, para minha surpresa, estavam corretas! Terminei a consulta me sentindo mais leve.

E assim foi, assim será sempre. A vida é feita de superações, quebras de barreiras. Eu posso ser mais lenta, demoro para chegar onde quero, mas chego. Tenho que passar a enxergar o fato de que sempre me supero, sempre vou me surpreender com as minhas próprias capacidades. Sempre vou vencer distâncias.

domingo, 17 de agosto de 2014

Sobre tomar coragem e compartilhar algumas coisas. Sobre ansiedade,sobre depressão.


Com os últimos acontecimentos tenho visto vários depoimentos sobre depressão. Muitos assumindo a doença, compartilhando como venceram ou como convivem com ela. O engraçado é que vêm de pessoas que você nunca esperava, não é? Pois bem, é assim mesmo, digo, a doença, quem tem muitas vezes esconde. Por quê? Talvez por medo de ouvir que é frescura, que é falta do que fazer, que "mas você tem uma vida perfeita"! Infelizmente foi necessário que uma notícia como o suicídio do Robin Williams abrisse os olhos das pessoas para a gravidade da doença, para que muitos passassem a "entender" a doença como doença!

Talvez não seja novidade para alguns, mas eu também tenho depressão. Na verdade transtorno misto de depressão e ansiedade. Ouçam bem, eu disse que tenho depressão, não que a depressão me tem! Por um tempo ela governou, por um tempo fiquei presa nesse casulo. Agora estou bem, há alguns meses já sem nenhuma recaída. Sim, tomo remédios, sim, faço terapia! Sim, sou humana! Sim, estou zelando pela minha saúde.

Aí vai um texto que escrevi no início do ano, pensando em postar aqui, mas me faltou coragem para isso. Na época eu não estava tão bem quando estou agora. Andei conversando sobre depressão com muita gente e descobri que compartilhar ajuda. Eu me sentia anormal por ter "desabado" tão perto do final da faculdade, mas descobri que tenho muitos colegas que também "surtaram" (cada um de sua maneira) durante esses últimos períodos. Não tenho que ter vergonha de mim mesma por isso. 

Às vezes tenho a nítida impressão de que o mundo gira e as coisas seguem seu curso e eu fico parada, para trás. Agindo apenas como espectadora, passivamente, olhando minha vida acontecer. Tudo é tão rápido e desorganizado e eu não tenho tempo de respirar e pensar no que acabou de ocorrer. Não. O mundo não vai parar para mim e quanto mais eu ficar parada, pior. Pior vai ser a corrida atrás do tempo perdido.
Incontáveis foram as minhas desculpas para me esquivar do ato de vivenciar minhas experiências. Por que fujo assim? Por medo, medo de não estar vivendo certo. Afinal, o que mesmo é viver de maneira correta? Existe isso, existe uma fórmula? Não, provavelmente eu que inventei isso também. O medo de errar o viver, tão forte e intenso que me paralisou, fez com que eu me esquivasse até das coisas mais simples do cotidiano, fez com que eu buscasse, no conforto do sono, uma rota de fuga.
Essa esquiva vira culpa, essa culpa potencializa o medo, que me paralisa mais e esse ciclo é interminável. Cada vez mais faço menos coisas, cada vez mais sinto menos vontade de seguir em frente, menor é a vontade de viver. O caminho, que já era longo, ficou maior ainda quando eu parei. Eu queria apertar um botão de congelar a vida.
Era assim que eu me sentia quando, no meio do ano de 2013, nas vésperas do meu aniversário, caí em depressão. Na verdade eu já estava nesse estado melancólico bem antes, provavelmente há alguns anos em processo de negação, não deixando transparecer nada. Foi o pior sentimento que tive em toda a minha curta existência. Agora estou me recuperando, ganhando forças. A doença continua e, às vezes eu ainda afundo, mas sempre volto à superfície. 
Nado devagar, de acordo com as minhas limitações. Aceitar as limitações é um processo novo para mim e um tanto quanto complicado. Assim como comemorar as pequenas vitórias.  Aprendi que, na realidade, toda vitória é uma vitória e nenhuma delas tem nada de pequena! Todas são exemplos diários e argumentos para mim mesma de que eu sou capaz de quebrar barreiras, de avançar e de viver. 
Ainda acredito que há uma maneira certa ou errada, não de se viver,  mas sim quanto às escolhas que se faz e a relação delas com o modo que se lida com as consequências por elas trazidas. No meu caso o medo era tanto que eu não conseguia mais fazer escolhas e as consequências disso foram desastrosas. No entanto, reconheço que, se isso não tivesse acontecido comigo, provavelmente eu ainda estaria a deriva vendo o barquinho da minha vida passar e alcançar o horizonte sem mim. (Janeiro, 2014)




sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Sobre ser futura médica 5


Imaginem a seguinte situação: uma paciente chega encaminhada ao ambulatório de patologia cervical. Ela vem com um resultado de exame preventivo nas mãos,  que tem como resultado "lesão intraepitelial de baixo grau" (LSIL). Diz que foi atendida previamente e informada de que isso não é nada grave, só uma feridinha, mas que se não acompanhar pode virar câncer. Sem mais explicações, levando em consideração toda a conotação da palavra câncer, a paciente conclui que, caso não se faça nada rapidamente, ela vai desenvolver um câncer avançado em pouquíssimo tempo e que pode morrer disso.

Aqui abro parênteses para esclarecer que, para essa moça, esse exame não é indicado e que, levando em consideração a idade dela (22 anos) o resultado não significa nada além de um grande susto e aborrecimento desnecessários. Não se colhe preventivo em mulheres (hígidas) abaixo dos 25 anos, pois mesmo que a prevalência de DNA-HPV seja alta, na grande maioria dos casos o próprio organismo elimina o vírus, ou seja, as lesões regridem sozinhas! No entanto uma vez colhida a citologia, a conduta deve ser expectante uma vez que, nessa faixa etária, foi observada regressão de LSIL em 60% dos casos em um período de 12 meses e de até 90% em três anos.  Para quem quiser mais informações aqui estão as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo de Útero.

Voltando ao caso, no primeiro momento tenho que acalmar a paciente super ansiosa (e com razão para isso!), taquipsíquica e taquilálica a ponto de não me deixar concluir sequer uma frase. Depois disso explico a ela o que deveria ter sido explicado (e que não foi) e o motivo pelo qual não estava indicada a realização do exame, que ela insistia em refazer com um intervalo de 2 meses do anterior.

Minhas tentativas  de argumentar com ela que só havia necessidade de refazer em 1 ano o dito exame foram frustradas e, então, fui salva pela minha professora, que pareceu ouvir os gritos de socorro que eu estava mentalizando. Ela finalmente conseguiu fazer com que a paciente entendesse o que eu estava tentando falar nos últimos 20 minutos. 

Onde eu quero chegar com essa história? Vejam bem, seja interno ou seja médico, somos vistos como figura de autoridade diante de um paciente. Nós tivemos duas pacientes com essa mesma história no mesmo dia.  O que aconteceu hoje poderia ter sido evitado. Até esse momento eu nunca tinha parado para pensar no impacto que as palavras ditas por um médico têm na vida de um paciente. Temos que ser muito bem informados, principalmente em relação às atualizações dentro da área da especialidade que escolhemos. 

Já ouviram a frase "A ignorância é uma benção."? Em alguns casos pode ser uma maldição... Estou pensando agora na quantidade de coisas que não sei, no tamanho da minha própria ignorância. O jeito de amenizar isso é correr atrás, estudar sempre. Haja responsabilidade!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Daily drops: Sobre ser futura médica...



"Ei você que está parada aí no meio do caminho, dá para se mover? Estou querendo passar!". Eu me sinto exatamente assim quando estou na sala amarela ou na vermelha da emergência. Tenho a nítida impressão de que o acadêmico está sempre bloqueando o caminho, atrapalhando de alguma maneira, então, timidamente, acabo me juntando à residente ou encostando num cantinho. 

Nesse momento tenho uma visão ampla da sala, dos acontecimentos. Os sons parecem se abafar por uns instantes e retornam, aos poucos, um a um enquanto vou absorvendo a quantidade enorme de informações. Nesse momento reparo nos pacientes, vejo nos olhos o medo e o desespero de alguns, a calma de outros. "Ei doutora!". Doutora, eu? É, doutora, se está de jaleco você é doutora! "Doutora, tem remédio para dor?", "Doutora, quando poderei ir embora?", "Você pode tirar minha pressão? Estou tão nervoso, vou operar!". 

Foi em um momento desses que descobri que alguns atos, simples mesmo, como aferir a pressão de um paciente, contar a frequência cardíaca, fazer uma ausculta, ou apenas falar com o paciente, são importantes. São gestos que transmitem confiança, carinho e suporte ao paciente, que se sente visto por alguém e que não é apenas mais um naquele mar de pessoas passando mal.  Um simples pedido de um paciente para "tirar" a pressão dele em meio à bagunça da emergência me fez ter esse insight. Obrigada, pacientes, vocês são os que mais me ensinam. E é aos poucos, fora dos livros, que vou me tornando cada vez mais médica.

sábado, 5 de julho de 2014

Poesia, num momento de agonia...

Escolhas.
Consequências.
Por que sempre escolho errado?
Mesmo sabendo a resposta certa,
Olho para o outro lado,
Dou as costas para o que está na minha frente!
Por que o caminho mais difícil é sempre o escolhido?
Talvez a vida seja simples,
Eu que complico tudo!

-Mariana Carpilovsky (05/07/2014)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Sobre novos rumos e caminhos

Um dia acordei e foi como se um vento tivesse passado por mim e levantado a poeira toda, levado tudo para bem longe. Tudo o que era já não é mais, agora o que não era é. Uma sensação de estranhamento invadiu minha mente, fiquei um tempo ainda deitada, paralisada.

Acordar em um mundo que não é o seu é difícil. Ser lançada para fora da sua zona de conforto dá medo. Primeiro vem a ansiedade atrelada à mudança ocorrida, depois vem o momento em que estou, em que me acostumo à nova realidade. É como se eu tivesse passado um tempo grande em um lugar escuro e esteja vendo a luz novamente. Tem que abrir os olhos devagar para não doer. Um passo de cada vez.

Passo a passo aprendo a lidar com o novo, que invade minhas veias, meu corpo. Começo a fazer escolhas, a me arriscar um pouco, a experimentar mais. Já não estou encolhida ou tateando paredes no escuro, isso passou. Agora contemplo tudo, amplio horizontes. São muitas direções e caminhos e não saber por onde andar assusta. Certamente, outrora eu teria dado meia volta e escolhido um canto para sentar, encolhida, de olhos fechados.

sábado, 31 de maio de 2014

Liberte a criança dentro de você! Mais sobre o sal da vida...

Garota pequenina
Brincando de amarelinha.
Pulando e saltando
Chega ao céu.
Risos,
Gargalhadas,
Palavras cantadas,
Caretas!
Menina borboleta,
Com varinha de condão.
Não quer mais ver as estrelas?
O que aconteceu?
Pequena, não se esconda
Se tem medo abra seu sorriso,
Ele é que abriga,
iluminando a vida!

-Mariana Carpilovsky,  31/05/2014

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Anorexia nervosa


3:50 da manhã, já nem precisa mais de despertador, já acorda sozinha. Hora de levantar e iniciar sua rotina. Trocar o pijama quentinho para roupa de ginástica é duro, principalmente no inverno, mas é para um bem maior. A calça está larga, diz esboçando um sorriso. Põe um tapete no chão, tem que ser silenciosa, não pode acordar ninguém! 

Sentada no tapete começa a calcular: 100 abdominais equivalem a 30Kcal, então ela deve fazer mil, no mínimo. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7,..., 24, 25. Agora faltam só 39 séries de 25. Andar em círculos no quarto seria mais fácil, mas os abdominais são mais silenciosos. Se ontem conseguiu fazer 500, por que não conseguiria fazer mil hoje? 

20 séries de 25. Está morrendo de dor. 500, igual a ontem. Ok, preciso fazer mais 100. 500 equivalem a 150Kcal, com mais 100 chego a 180kcal. Depois eu me permito descansar por meia hora e começo a andar em círculos pelo quarto, 40 minutos de caminhada são 99Kcal. Com isso deve conseguir cobrir o café da manhã, tem que queimar o que comer.  Terminada a rotina, hora do banho. Não tem mais espelhos no banheiro, nem balança. Retiraram.  Sua mãe grita para vir comer. Não pode ser no quarto? Sozinha? Nem pensar, todos a vigiam. 

Chega na cozinha e o café da manhã mudou. Não pode mudar! Precisa comer sempre a mesma coisa, é mais seguro! Não quer muffins, mas tem que comer. E iogurte. Começa a suar frio, o coração acelera. Senta-se à mesa, e começa a picar os bolinhos em pedacinhos cada vez menores. O processo de comer foi tão longo que quase perdeu o ônibus. Está ansiosa, vasculha na bolsa seu SOS. 5 gotas de clonazepam. Ela vai dormir na aula. Tudo bem, uma hora dormindo equivale a gastar 65Kcal.

Na foto:  Isabelle Caro, ex-modelo francesa, em campanha contra anorexia, faleceu em 2010, lutando contra anorexia, que tinha desde seus 13 anos. Esse é um transtorno psiquiátrico grave, que mata, aliás, um dos que mais mata, talvez o que mais mate.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sobre ser futura médica 4



"É no internato que mais se aprende!". Já ouvi muito essa frase de diversos amigos e professores. Sim, estão certos, de fato é onde mais estou aprendendo. Outra frase que já ouvi durante a minha vida toda é aquela clássica de que só aprendemos com os erros. Pois bem, concordo, aprendo com os meus erros e com o dos outros. E, ultimamente, tenho aprendido muito.
Na condição de interna estou na base da cadeia alimentar, só ganho dos períodos abaixo. Estou no primeiro período do internato e comecei a rodar justo onde se encontram os deuses e semi-deuses do hospital. No monte Olimpo do hospital onde estudo, me dei conta de que não tenho voz, sou "só a interna". Sou só uma das pessoas que evoluem os pacientes, que levam para fazer alguns exames, que basicamente tocam o serviço da enfermaria enquanto os deuses e semi-deuses estão em ou outro lugar,  treinando suas habilidades manuais. Confundindo pessoas com objetos, suponho eu. 

Tenho observado que, cada vez mais, tratam a doença, não o doente. Esquecem que por trás de uma colecistite, apendicite, câncer de cólon, de estômago, de pâncreas, seja lá do que for, tem um paciente. Isso gera uma revolta em mim, fico com raiva e frustrada ao mesmo tempo. Presencio situações muito erradas, desrespeitosas até, mas na minha condição dentro do monte Olimpo, estou de mãos atadas, sou "só a interna". Só a pessoa que "você deve ter se enganado, não aconteceu assim"!

Sou obrigada a aturar isso, de boca fechada. Pois bem, aprendo com exemplos. Dizem que a faculdade é muito técnica, que não aprendemos algumas coisas. Realmente, não existe um livro com o segredo de ser um bom médico. No entanto, eu, na minha humilde posição de interna, digo que a faculdade ensina muito mais do que pensamos que aprendemos, o problema é que só aprende quem quer, quem consegue observar o que acontece a sua volta e refletir sobre os fatos ocorridos. E, olha, acontece tanta coisa, mas tanta coisa a minha volta, que eu chego até a ficar sobrecarregada com o "aprendizado indireto".

Infelizmente, parte da afirmativa que fiz lá em cima, é verdadeira. Ninguém aprende a ser honesto e responsável na faculdade. Ninguém aprende a se importar com o próximo na faculdade. Isso vem de berço! Ninguém aprende a ter empatia pelo doente, isso é da personalidade de cada um. Podemos até desenvolver simpatia pela situação, o que ajuda na relação médico paciente, mas uma pessoa que não tem empatia, muito provavelmente, se não receber um empurrãozinho, ficará "desconectada".

Eu sou ingênua, cada vez que presencio algo de errado eu fico surpresa. Diante de alguns absurdos que vejo, fico pensando em como, cada vez mais, pessoas são capazes de fazer atrocidades. Uma vez, no medcurso, presenciei a seguinte cena: uma menina que estava com a perna imobilizada foi chamada atenção por apoiar a perna numa cadeira ao lado. A justificativa dada pela funcionária era de que alguns alunos vieram reclamar que ela estava atrapalhando a passagem. Ela teve que mudar de lugar. Pedir licença não existe não? Nem mudar de caminho? Eu fico aqui pensando: "Essa é a geração de futuros médicos..." 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O jardim que não floresce

Era uma tarde qualquer. Nem quente nem fria. Nem sol nem chuva. Totalmente sem sal. Sair da cama foi difícil, apesar de estar desperta desde as 5. Tudo era muito complicado, que demora para levantar! Tarefa outrora tão simples, agora tão árdua. Por mais que tenha passado 7 horas deitada na cama, no quarto escuro, dominada por estranhos pensamentos, ainda tinha o dia todo pela frente! Já estava cansada só de pensar nisso.

Contou até 3 algumas vezes até que numa hora conseguiu se livrar das cobertas. É só pisar no chão, levantar e abrir a janela, vamos lá, força! Seguiu cabisbaixa pelo corredor, passou pelo banheiro, ignorando o espelho, pensou em tomar banho, mas logo desistiu, não tinha planos de sair mesmo. Que dia é hoje mesmo? Ainda estamos em agosto? Não sabia, não ligava. Nada mais importava. Seguiu até a cozinha.

Passou pelo telefone, repleto de chamadas perdidas e mensagens não lidas. Depois vejo isso. O que ía fazer mesmo? Ah, sim, água, cozinha. Onde mesmo que guardei os copos? Olhou em volta e, por fim, lembrou. Pegou sua água, seguiu para a sala e, sem acender a luz, sentou no sofá. Seria capaz de passar mais sete horas sentada olhando para o nada. Bebeu a água. Olhando em volta reparou nas revistas acumuladas, jornais e contas empilhadas na mesa. Fui eu que arrumei isso? Não lembro... 

Suspirou. Deitou no sofá e tentou escapar da realidade novamente, mas não obteve sucesso. Seria melhor que eu acabasse com isso logo, por que é que um raio não cai logo na minha cabeça?! Lágrimas escorreram pelo rosto. Eu queria sumir, nunca mais aparecer! Não faria falta nem seria peso na vida de ninguém! Queria morrer, mas sou tão covarde. Covarde até para isso! Levantou-se e foi até as pilhas de jornais. Tinha um bilhete em cima, nele estava escrito: "Você precisa de ajuda! Ligue para mim, por favor, beijos, da sua amiga, Marina".

Marininha. Cresceram juntas. Pegou o bilhete e o abraçou, mais lágrimas caíram. Elas estavam sempre unidas. Por que é que me afastei tanto de todos? Não encontrou nenhuma resposta. Enxugou o rosto, pegou o telefone e ligou. "Clarinha! ainda bem! Estava preocupada, vou para sua casa agora mesmo!". Entre lágrimas e soluços consegue responder. "Marina, acho que meu jardim está morto, nada mais cresce nele...". 

sábado, 5 de abril de 2014

Poesia da semana

Girl before a Mirror - Pablo Picasso,1932
Meus olhos sorrindo
Esconcondem o que realmente sinto.
Minha boca, fechada num sorriso,
Prende minhas palavras.
É assim que sou,
Aos olhos dos outros,
Fonte de luz.
Olhando para dentro,
Vejo tudo que é sentimento,
Um furacão de emoções,
Preso, querendo sair.
Enquanto isso o sorriso permanece,
A mesma máscara sempre,
A mesma calmaria aparente.

- Mariana Carpilovsky (17/02/2014)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Conto outro conto



Cinquenta minutos. Cinquenta. Está aqui há menos de uma hora e já quer sair. Música alta, luz no rosto, garfos caindo no chão, pessoas conversando, amigos conversando com ele, tem que decidir o que comer. Já chegou a bebida? Você que pediu isso? Ei, você quer dividir um prato? Ei, tem alguém aí?! Para de autistar e presta atenção no que estou falando! Volta a si mesmo, esgotado. Muitos estímulos, muita gente. Respira fundo. Estou. Sim, vamos dividir! Então, o que você quer? 
O que ele quer? Pensar numa rota de fuga. Como fazer para voltar pra casa? Está no meio de dois amigos, numa mesa no fundo. Tem a banda, a mesa de sinuca e a escada antes da porta. Está sufocado, coração acelerado, vontade de sumir, correr dali, socorro! Que tensão, o pescoço dói muito. Frango xadrez? Cara, quem pede frango xadrez num bar?! Tem isso aqui? Vamos pedir uma pizza. Ok, serve qualquer uma. 
Então, quais são seus planos de fim de semana? Planos? Tem que planejar o fim de semana?! Ai deus! Não sabe o que fazer, estava pensando em ler, ver um filme. Você e seus livros, que coisa mais chata, vem beber com a gente! Mas a gente não está bebendo agora, tem que sair para beber no fim de semana também? É, a gente combina quando chegar mais perto.
Se sair daqui depois de onze horas perde o metrô. Não quer voltar de ônibus no escuro. Taxi? É a solução. Pedir um taxi e voltar tranquilamente para casa, mas e se a companhia de taxi não atender a ligação? E se não tiver taxi? Precisa ir ao banhero! Respira, respira, respira, respira. Lava o rosto, pega o celular e agenda o taxi. Alívio. Pronto para voltar para a mesa do bar? Veremos.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Conto mais um conto



Uma coleção de cartas, poemas e flores secas dentro de uma caixa velha, com uma fita de cetim, outrora branca, mas hoje amarelada, a envolvendo. Ela pegou as cartas nas mãos, cheirou e guardou junto ao peito durante alguns minutos, suspirando. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Então foi isso que sobrou? Então quer dizer que anos juntos, muitos momentos especiais, muito amor e afeto evaporaram assim, dessa maneira tão abrupta que a única coisa concreta que sobrou foram as cartas guardadas com tanto carinho? Fora isso só as lembranças. 

Como não percebi o que era tão óbvio? Por que me deixei enganar dessa maneira? Eu sabia que o amor tinha acabado, mas preferi não enxergar. Só não imaginava que iria sofrer tanto. Um dia ele simplesmente se foi, sem ao menos dar explicações.

O homem que tanto amei já não estava mais comigo, ele era outro, um estranho. Sua energia e vitalidade foram sugadas e eu simplesmente deixei que isso acontecesse. Talvez eu mesma não já não fosse a mulher com quem ele se casou. Sua amada nunca deixaria que as coisas tomassem esse rumo.

Pôs as cartas ao lado da caixa, não tinha forças para lê-las. Pegou as flores, eram rosas, margaridas e lavanda, as colocando em cima das cartas, ainda tinham cheiro. O cheiro das tardes que passaram juntos caminhando ao sol. Por último, embrulhado cuidadosamente em um lenço bordado, estava um parzinho de sapatos tricotados. Nunca foram usados.



domingo, 16 de março de 2014

Quando bate aquela saudade...





Meu coração às vezes chora,
Silenciosamente chora.
Por aquela que já se foi,
Existindo apenas na memória.
Fotos, filmes e escritos,
Todos evocam lembranças,
Momentos cheios de saudade,
Mesmo quando brigava comigo.
Minha flor do amor!
Ah, o perfume de rosa!
Ela sempre usava.
Sua voz agora ecoa na minha mente:
"Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado..."

-Mariana Carpilovsky

quinta-feira, 13 de março de 2014

Poesia da semana



Apesar da temática até que o poeminha ficou fofo! Eu tô bem, viu gente? Só estou jogando com as palavras e brincando com os meus mecanismos de defesa (nada saudáveis) contra o estresse... A primeira coisa para conseguir mudar não é identificar o problema? Então, estou na fase de, depois de identificar e pensar muito, brincar com meus problemas. Eles são parte de mim, eu cresci assim então, em vez de tentar me desfazer deles, estou tentando me aceitar do jeitinho que eu sou. Aceitando essa faceta, talvez eu abra espaço para outras facetas... Eu não consegui nada com a resistência e a negação, vamos ver se eu consigo alguma coisa ao "me render" de maneira saudável a eles!

terça-feira, 11 de março de 2014

Loucura minha de todas as noites

Hoje é uma daquelas noites em que eu estou transbordando e não sei o que fazer exatamente em relação a isso. Ficar parada me incomoda, mas não consigo achar um recurso para retornar ao meu estado basal. É um daqueles dias em que quero escrever, mas não saem palavras, tento desenhar, mas a ponta do lápis quebra. Está muito quente para tomar chá, muito tarde para sair para nadar e já tomei banho. Estou com sono demais para ler e agitada demais para dormir. 

Pense no azul, pense no azul, pense no azul. Pensar no azul por quê? Não estou nervosa nem ansiosa. Só estou agitada e encucada por não entender o motivo para isso. O dia não foi agitado e amanhã também aparenta ser um dia calmo. É numa hora dessas que penso: "será que algo está para acontecer?"  Obviamente sempre algo está para acontecer, a vida é assim, os fatos  supostamente foram feitos para serem acontecidos! Só que não foi isso que eu quis dizer... 

Às vezes tenho a nítida impressão de que algo está acontecendo bem debaixo do meu nariz e eu não estou enxergando e isso acaba gerando uma certa apreensão em mim. Loucura! Se bem que sou estudante de medicina, portanto considero que tenho mais que "um pouco" de médico. Isso faz com que a minha parte louca, seja menor, não? Ou, quem sabe, ela seja maior só pra equilibrar? Bom, tendo em vista esse texto que acabo de escrever, acho que fico com a segunda hipótese! 

Boa noite!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sobre ser futura médica 3


Estou desenvolvendo cada vez mais a minha capacidade de confortar os outros. Ao contrário do que muitos pensam, a medicina não é exatamente uma ciência da cura. Na maioria das vezes não se cura nada, apenas se controla uma condição. Outras vezes a única coisa que temos para oferecer são cuidados paliativos e, quando nem isso é possível, só nos resta a lábia, o tato.

Temos esse paciente, que está no momento no CTI. A esposa dele sabe que ele não volta para casa e nos pede encarecidamente para que o marido ao menos não sinta dor, fique confortável. Ao falar conosco ela chora. Eu consegui, com um pouco de custo, não chorar junto, afinal a família do paciente não está lá para nos confortar! É justamente o contrário, nós não somos responsáveis apenas pelos pacientes em si, temos que saber lidar com a família também.

Apesar do paciente ter apresentado melhora de manhã, ter saído da ventilação mecânica, de tarde ele parou, precisou ser sedado novamente e reintubado. Estava próximo ao horário da visita e não sabíamos como falar com a esposa dele, que já estava sabendo da "melhora do marido". A visita da saúde, sabe como é né? Eu acredito nisso e, ainda bem, a esposa dele também! Ela esperava por isso… Eu, ingenuamente, por esquecimento, não. Tentamos adiantar a hora da visita, mas não conseguimos. Foi revoltante, temíamos que o paciente falecesse sem que a esposa pudesse vir vê-lo, ele estava tão instável. No entanto deu tudo certo, ele continuou lutando. 

A cena dela orando com  ele foi emocionante, ver no monitor a frequência cardíaca dele aumentando de 60 para 102 no momento em que a esposa começou a conversar com ele foi muito linda. Ele sabia que ela estava lá, mesmo sedado! Nessa hora minha colega e eu saímos, com o coração na mão.  E para completar o dia, a senhorinha comprou uma lembrancinha para cada pessoa que cuidou do marido. Não saímos bem do CTI, lógico, mas, pelo menos, saímos sabendo que conseguimos dar a atenção necessária à esposa do paciente, que ela sentiu que o marido dela não ficou totalmente desamparado.

What a day! Totalmente pesado, cheio de aprendizados que nenhum livro de medicina ensina. É, o internato não é por só a teoria em prática, é muito mais que isso. É mergulhar na realidade, aprender a nadar nela, sem bóia!  Ainda estamos engolindo um pouco de água, mas não nos afogamos. 
        
        No final do dia fui ao jardim do hospital para dar uma respirada. É impressionante como não damos atenção ao que está na nossa frente. Só fui descobrir hoje que o jardim de lá era bonito!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sobre ser futura médica 2

     Vim aqui falar sobre o sentimento de impotência. Por mais que já tivesse ouvido da boca da minha mãe que esse é um sentimento com o qual muitas  vezes vou me deparar, nunca acreditei que fosse sentir isso tão cedo. Na condição de interna, logo na segunda semana do internato em cirurgia, a realidade me deu um tapa na cara e, dias depois, me deu outro tapa. 

     Ver um paciente fora de possibilidades terapêuticas, sofrendo, foi muito duro. Eu já tive contato com outros pacientes assim no CTI, mas todos sedados, confortáveis. Uma paciente, lúcida, que mal conseguia falar, ofegante, olhou nos meus olhos e disse: "Doutora, eu vou morrer!" 

     Isso me quebrou. Eu não conseguia pensar em nada além de segurar a mão dela e falar com uma voz suave para ela se acalmar, falar algumas palavras de conforto. Fiquei segurando as mãos dela por uns minutos. O que ela disse era verdade, ela iria morrer, ela sabia disso, a família sabia, eu sabia. Eu não podia fazer mais nada. 

     Não que eu ache que, na condição de interna, eu tivesse capacidade de intervir. A minha vontade era de pedir para que alguém sedasse ela, desse mais conforto, nem sei se seria a melhor conduta ou não, mas ver o próximo sofrer sem poder fazer nada estava me matando. Felizmente, sim, felizmente, essa paciente agora descansa, mas acho que as últimas palavras dela ficarão gravadas na minha memória para sempre. 

      Eu tirei uma lição muito positiva apesar de tudo. Eu aprendi que, por mais que eu queira, não posso carregar o mundo nas costas, que ninguém é capaz de resolver tudo. Que o mais importante é ter a consciência de que você fez o que estava ao seu alcance no momento. 

     A impotência eventualmente esbarra conosco, pode nos derrubar, mas nos levantamos. Agora, eu gostaria muito de saber quando é que eu passarei a me machucar menos durante a queda...