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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Escrevendo por aí de madrugada

Ainda era cedo e ela não via a hora passar. Sentada, olhava para a mandala que fora colocada na parede na semana anterior. Presente. Admirava o emaranhado de linhas e círculos e cores. Uma bagunça. Bebericava seu chá. Estava frio.
Agitada, levantou da cadeira e se pôs a andar de um lado para o outro , queria sair, mas não sabia o porquê. Olhou pela janela os carros passando. Que rua barulhenta. Que ideia abrir um escritório justo aqui!
Era como se uma tempestade estivesse se armando, não lá fora, mas dentro de sua própria cabeça. Eram tantos pensamentos. Uma cortina de nuvens escuras cobria tudo. Visibilidade zero. Queria sumir e talvez agora ela soubesse o porquê.
No entanto, não dá para fugir do que você mesma guarda dentro de si. Fizera de seu corpo um depósito. Guardou tanta coisa que agora inundava. E ficou ali parada, no meio da sala, olhando a mandala, olhando o relógio, transbordando, não vendo a hora passar.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Anorexia nervosa


3:50 da manhã, já nem precisa mais de despertador, já acorda sozinha. Hora de levantar e iniciar sua rotina. Trocar o pijama quentinho para roupa de ginástica é duro, principalmente no inverno, mas é para um bem maior. A calça está larga, diz esboçando um sorriso. Põe um tapete no chão, tem que ser silenciosa, não pode acordar ninguém! 

Sentada no tapete começa a calcular: 100 abdominais equivalem a 30Kcal, então ela deve fazer mil, no mínimo. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7,..., 24, 25. Agora faltam só 39 séries de 25. Andar em círculos no quarto seria mais fácil, mas os abdominais são mais silenciosos. Se ontem conseguiu fazer 500, por que não conseguiria fazer mil hoje? 

20 séries de 25. Está morrendo de dor. 500, igual a ontem. Ok, preciso fazer mais 100. 500 equivalem a 150Kcal, com mais 100 chego a 180kcal. Depois eu me permito descansar por meia hora e começo a andar em círculos pelo quarto, 40 minutos de caminhada são 99Kcal. Com isso deve conseguir cobrir o café da manhã, tem que queimar o que comer.  Terminada a rotina, hora do banho. Não tem mais espelhos no banheiro, nem balança. Retiraram.  Sua mãe grita para vir comer. Não pode ser no quarto? Sozinha? Nem pensar, todos a vigiam. 

Chega na cozinha e o café da manhã mudou. Não pode mudar! Precisa comer sempre a mesma coisa, é mais seguro! Não quer muffins, mas tem que comer. E iogurte. Começa a suar frio, o coração acelera. Senta-se à mesa, e começa a picar os bolinhos em pedacinhos cada vez menores. O processo de comer foi tão longo que quase perdeu o ônibus. Está ansiosa, vasculha na bolsa seu SOS. 5 gotas de clonazepam. Ela vai dormir na aula. Tudo bem, uma hora dormindo equivale a gastar 65Kcal.

Na foto:  Isabelle Caro, ex-modelo francesa, em campanha contra anorexia, faleceu em 2010, lutando contra anorexia, que tinha desde seus 13 anos. Esse é um transtorno psiquiátrico grave, que mata, aliás, um dos que mais mata, talvez o que mais mate.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Conto outro conto



Cinquenta minutos. Cinquenta. Está aqui há menos de uma hora e já quer sair. Música alta, luz no rosto, garfos caindo no chão, pessoas conversando, amigos conversando com ele, tem que decidir o que comer. Já chegou a bebida? Você que pediu isso? Ei, você quer dividir um prato? Ei, tem alguém aí?! Para de autistar e presta atenção no que estou falando! Volta a si mesmo, esgotado. Muitos estímulos, muita gente. Respira fundo. Estou. Sim, vamos dividir! Então, o que você quer? 
O que ele quer? Pensar numa rota de fuga. Como fazer para voltar pra casa? Está no meio de dois amigos, numa mesa no fundo. Tem a banda, a mesa de sinuca e a escada antes da porta. Está sufocado, coração acelerado, vontade de sumir, correr dali, socorro! Que tensão, o pescoço dói muito. Frango xadrez? Cara, quem pede frango xadrez num bar?! Tem isso aqui? Vamos pedir uma pizza. Ok, serve qualquer uma. 
Então, quais são seus planos de fim de semana? Planos? Tem que planejar o fim de semana?! Ai deus! Não sabe o que fazer, estava pensando em ler, ver um filme. Você e seus livros, que coisa mais chata, vem beber com a gente! Mas a gente não está bebendo agora, tem que sair para beber no fim de semana também? É, a gente combina quando chegar mais perto.
Se sair daqui depois de onze horas perde o metrô. Não quer voltar de ônibus no escuro. Taxi? É a solução. Pedir um taxi e voltar tranquilamente para casa, mas e se a companhia de taxi não atender a ligação? E se não tiver taxi? Precisa ir ao banhero! Respira, respira, respira, respira. Lava o rosto, pega o celular e agenda o taxi. Alívio. Pronto para voltar para a mesa do bar? Veremos.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Conto mais um conto



Uma coleção de cartas, poemas e flores secas dentro de uma caixa velha, com uma fita de cetim, outrora branca, mas hoje amarelada, a envolvendo. Ela pegou as cartas nas mãos, cheirou e guardou junto ao peito durante alguns minutos, suspirando. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Então foi isso que sobrou? Então quer dizer que anos juntos, muitos momentos especiais, muito amor e afeto evaporaram assim, dessa maneira tão abrupta que a única coisa concreta que sobrou foram as cartas guardadas com tanto carinho? Fora isso só as lembranças. 

Como não percebi o que era tão óbvio? Por que me deixei enganar dessa maneira? Eu sabia que o amor tinha acabado, mas preferi não enxergar. Só não imaginava que iria sofrer tanto. Um dia ele simplesmente se foi, sem ao menos dar explicações.

O homem que tanto amei já não estava mais comigo, ele era outro, um estranho. Sua energia e vitalidade foram sugadas e eu simplesmente deixei que isso acontecesse. Talvez eu mesma não já não fosse a mulher com quem ele se casou. Sua amada nunca deixaria que as coisas tomassem esse rumo.

Pôs as cartas ao lado da caixa, não tinha forças para lê-las. Pegou as flores, eram rosas, margaridas e lavanda, as colocando em cima das cartas, ainda tinham cheiro. O cheiro das tardes que passaram juntos caminhando ao sol. Por último, embrulhado cuidadosamente em um lenço bordado, estava um parzinho de sapatos tricotados. Nunca foram usados.



sábado, 21 de setembro de 2013

Conto outro conto...

             Mais um dos meus contos... :)



             Fechou o livro e colocou na prateleira. Parou uns instantes para ouvir a chuva, que caía desde o dia anterior. O barulho agudo da chaleira o interrompeu, correu para a cozinha, desligou o fogo. Que chá escolher? Ela gostava de erva-doce. Pegou o chá e, enquanto esperava esfriar um pouco, olhava para o vidro da janela, embaçado, com os caminhos das gotas de chuva desenhados. Quando criança costumava escolher duas gotas e apostar qual escorreria mais rápido.
    Detesto erva-doce, pensou, enquanto bebia. Na verdade não gostava de chá, mas estava frio e ele precisava de algo para esquentá-lo. Ele sabia que, no fundo, nada o esquentaria. Ela adorava chá, ela adorava chuva, adorava tomar chá em dias de chuva. Tinha uma coleção de xícaras e, ao longo do dia, fazia questão de exibir todas elas, lembrou. Seu coração ficou pequeno, sentiu um aperto, um nó na garganta, deixou uma lágrima escorrer. Não tinha importância chorar, ninguém estava lá para ver.
    Engraçado pensar que, um ano atrás, estavam os dois, um nos braços do outro, aconchegados no sofá em frente à lareira acesa, se aquecendo com o fogo e o chá, lembrando de histórias de quando as crianças eram pequenas, rindo. Hoje ele nem se deu ao trabalho de acender a lareira, a lenha estava lá, cortada, pegando umidade. Olhava para as fotografias expostas e para as 3 meias de natal penduradas, uma de cada criança. Ela sempre pendurava essas meias, mesmo depois de os filhos terem saído de casa. 
    A árvore de natal estava montada, com os enfeites de vidro, a estrela no topo, as luzes coloridas. Os presentes, embrulhados cuidadosamente em papel colorido, estavam na base, seus filhos e netos viriam na manhã seguinte. Subiu as escadas, foi a todos os quartos para saber se tinham sido arrumados para as visitas e retornou à cozinha. 
    Jogou fora o chá frio, lavou a xícara. Como é ruim lavar a louça no frio! Começou a arrumar a mesa para a ceia. Toalha vermelha, travessa com peru, as rabanadas, o salpicão, salada, arroz… Um  prato. Não, dois pratos, duas taças de vinho. Sentou-se, fez uma oração, se serviu. O relógio deu meia noite. Se as crianças estivessem aqui hoje ele diria que, agora sim, os presentes poderiam ser abertos.
    Levantou-se, foi até a árvore, ligou as luzes, procurou seu presente, não encontrou, não encontraria. Deu um suspiro e ficou observando as cores das luzes que batiam na parede. Cantou um pouco, bebeu vinho e continuou a olhar a árvore, procurando, ainda, seu presente. Foi até o armário da sala e foi retirando, uma por uma, as xícaras de sua esposa, as colocando debaixo da árvore. E a chuva continuava.

-Mariana Carpilovsky  


Boa tarde!!! :)

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Conto um conto

Ultimamente tenho escrito alguns contos, não costumo gostar do que escrevo, mas resolvi me testar e coloca-los no facebook, recebi alguns elogios. Fiquei surpresa com o fato de que tem gente que gostou do que eu escrevi. Aí vai um deles.

Sobre retalhos  e borboletas:  
     A colcha era feita de retalhos coloridos, um presente de sua avó. Deitada na cama observava as diferentes estampas e lembrava das roupas às quais pertenciam cada retalho e das situações em que as usou. Podia passar dias e dias fazendo isso, era divertido.
     Enrolou-se nas cobertas e imaginou estar dentro de um casulo. Isso era confortável. Fechou os olhos e voltou sua atenção para si mesma, para a respiração, a pulsação e o sangue dentro dela. Sangue venenoso, pensou, se lembrando das manchas roxas em seu braço, no local onde, há algum tempo, juntamente com o sangue, esteve correndo soro e medicação. 
     Alcançou o espelho, que estava na mesinha perto da cama, junto com o almoço, que ela ainda não tinha comido. Seus cabelos tinham começado a crescer novamente, tufos de cabelos finos, claros e frágeis. Daqui a pouco não precisaria usar mais os lenços, gorros e chapéus. Sorriu com o canto da boca e guardou o espelho. 
     Espreguiçou-se, sentou e olhou para a comida. Aquilo a deixou enjoada. Queria alguém para conversar, estava sozinha e esquecida naquele quarto a semana toda. Desde que voltaram as aulas a casa ficou vazia. Os irmãos só chegariam pelas 17:30 e ainda era tão cedo. Suspirou. Queria poder ir para a escola. 
     Pegou o livro que estava lendo e abriu. "A entrevista com o vampiro". Anne Rice era a autora da vez. Um parágrafo, dois, três… Cansou. Antigamente era capaz de passar horas e horas imersa nesse mundo de letras e palavras, mas agora era tão exaustivo. Brincou com as páginas por uns minutos, passando as mãos pelas palavras. Fechou e abraçou o livro. 
      Puxando as cobertas para si, sentia muito frio, olhava pela janela, e lembrava do jardim lá fora. Era quase primavera, devia estar lindo, cheio de borboletas e botões de flores! Quem sabem me deixam passear mais tarde se eu estiver melhor? Pegou no sono, ainda abraçada com o livro. Enquanto isso, no jardim, numa árvore, bem próxima à janela do quarto, a primeira borboleta saía de seu casulo.
-Mariana Carpilovsky  




Nesses últimos meses aprendi que devemos celebrar mais a vida, sabem?