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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Escrevendo por aí de madrugada

Ainda era cedo e ela não via a hora passar. Sentada, olhava para a mandala que fora colocada na parede na semana anterior. Presente. Admirava o emaranhado de linhas e círculos e cores. Uma bagunça. Bebericava seu chá. Estava frio.
Agitada, levantou da cadeira e se pôs a andar de um lado para o outro , queria sair, mas não sabia o porquê. Olhou pela janela os carros passando. Que rua barulhenta. Que ideia abrir um escritório justo aqui!
Era como se uma tempestade estivesse se armando, não lá fora, mas dentro de sua própria cabeça. Eram tantos pensamentos. Uma cortina de nuvens escuras cobria tudo. Visibilidade zero. Queria sumir e talvez agora ela soubesse o porquê.
No entanto, não dá para fugir do que você mesma guarda dentro de si. Fizera de seu corpo um depósito. Guardou tanta coisa que agora inundava. E ficou ali parada, no meio da sala, olhando a mandala, olhando o relógio, transbordando, não vendo a hora passar.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O jardim que não floresce

Era uma tarde qualquer. Nem quente nem fria. Nem sol nem chuva. Totalmente sem sal. Sair da cama foi difícil, apesar de estar desperta desde as 5. Tudo era muito complicado, que demora para levantar! Tarefa outrora tão simples, agora tão árdua. Por mais que tenha passado 7 horas deitada na cama, no quarto escuro, dominada por estranhos pensamentos, ainda tinha o dia todo pela frente! Já estava cansada só de pensar nisso.

Contou até 3 algumas vezes até que numa hora conseguiu se livrar das cobertas. É só pisar no chão, levantar e abrir a janela, vamos lá, força! Seguiu cabisbaixa pelo corredor, passou pelo banheiro, ignorando o espelho, pensou em tomar banho, mas logo desistiu, não tinha planos de sair mesmo. Que dia é hoje mesmo? Ainda estamos em agosto? Não sabia, não ligava. Nada mais importava. Seguiu até a cozinha.

Passou pelo telefone, repleto de chamadas perdidas e mensagens não lidas. Depois vejo isso. O que ía fazer mesmo? Ah, sim, água, cozinha. Onde mesmo que guardei os copos? Olhou em volta e, por fim, lembrou. Pegou sua água, seguiu para a sala e, sem acender a luz, sentou no sofá. Seria capaz de passar mais sete horas sentada olhando para o nada. Bebeu a água. Olhando em volta reparou nas revistas acumuladas, jornais e contas empilhadas na mesa. Fui eu que arrumei isso? Não lembro... 

Suspirou. Deitou no sofá e tentou escapar da realidade novamente, mas não obteve sucesso. Seria melhor que eu acabasse com isso logo, por que é que um raio não cai logo na minha cabeça?! Lágrimas escorreram pelo rosto. Eu queria sumir, nunca mais aparecer! Não faria falta nem seria peso na vida de ninguém! Queria morrer, mas sou tão covarde. Covarde até para isso! Levantou-se e foi até as pilhas de jornais. Tinha um bilhete em cima, nele estava escrito: "Você precisa de ajuda! Ligue para mim, por favor, beijos, da sua amiga, Marina".

Marininha. Cresceram juntas. Pegou o bilhete e o abraçou, mais lágrimas caíram. Elas estavam sempre unidas. Por que é que me afastei tanto de todos? Não encontrou nenhuma resposta. Enxugou o rosto, pegou o telefone e ligou. "Clarinha! ainda bem! Estava preocupada, vou para sua casa agora mesmo!". Entre lágrimas e soluços consegue responder. "Marina, acho que meu jardim está morto, nada mais cresce nele...". 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Conto outro conto


Outro conto meu. Em vez de estudar para a prova eu fico escrevendo, vou longe assim....
...
Folhas secas, caídas, estalam a cada passo que dou, o vento ainda não fez o trabalho de varre-las dali. Vou caminhando em silêncio nesse tapete de tons que variam do amarelo para marrom. Olho para baixo, sempre, para não tropeçar. Sigo em frente, agindo como se não tivesse hora nem lugar para estar. Apenas aproveito a caminhada. 
Minha aparência engana, tenho a serenidade estampada no rosto, transmito calmaria apesar de não saber como isso é possível. Por dentro desse molde de porcelana se instaura o caos! Milhares de mini eus falam ao mesmo tempo, algumas vezes um assume um monólogo enquanto os outros, ums de mãos atadas, uns lábios cerrados e mais outros ignorando tudo ou ficando apenas observando a confusão, a gritaria e a agressividade. 
Estou num momento desses, desfrutando a paisagem, inalando ar fresco, escutando o que as folhas secas tem a dizer para mim, aparentemente calma. No entanto, minha cabeça está a mil. Essa caminhada é apenas  um recurso para tentar sair desse redemoinho em que mergulhei. Respiro mais profundamente, fecho os olhos, tentando desviar minha atenção desses pensamentos. 
Chego num córrego, desses bem pequeninos, de água tão transparente que dá até para enxergar o fundo com suas pedrinhas coloridas. Alguns pássaros cantam e voam de galho em galho, derrubando mais algumas folhas no chão. Agachando-me banho as mãos na água gelada, lavo o rosto. Deito no chão, fico a olhar as nuvens.
O conforto que senti,  proporcionado pelo abraço das folhas e pela terra úmida e quente, juntamente com a musicalidade do vento, me embalou. Não sei por quanto tempo dormi. Tempo suficiente para esquecer. Tempo o suficiente para um encontro com a paz interior. Respirei profundamente algumas vezes antes de me levantar e voltar para a cidade.
-Mariana Carpilovsky